segunda-feira, 17 de agosto de 2020

“TSEDACÁ, TZEDAKA ou TZEDAKAH”


“TSEDACÁ, TZEDAKA ou TZEDAKAH”

 

Maimônides, grande filósofo judaico do século XII, ensinou que existe um “caminho de ouro”, entre dois extremos.

 

Maimônides nos ensina que de acordo com a filosofia judaica existe um caminho mediano, o caminho de ouro, entre dois extremos. Ele prossegue dizendo que, enquanto as extremidades são negativas, o caminho mediano é o caminho correto que devemos seguir. A título de exemplo, a virtude da generosidade é o caminho do meio entre a avareza, em um extremo, e o esbanjamento, no outro; ambas sendo características indesejáveis.”

 

Tsedacá é a prática judaica de auxiliar os pobres e os necessitados em suas carências, destinando regularmente parte das rendas e dos bens para tornar isto possível. Essa prática, porém, é feita não como um ato de caridade ou benevolência, porque há o entendimento de que os recursos e os bens não pertencem aos homens, mas a Deus, O qual confiou a posse deles às pessoas para que os administrem como bons mordomos e pratiquem aquilo que é justo, não os utilizando somente para as necessidades e para o conforto da própria família, mas também para dar assistência aos que se encontram em estado de vulnerabilidade.

 

Tsedacá é a palavra hebraica para os atos que denominamos “caridade” em português: dar apoio, auxílio e dinheiro para o pobre e necessitado. A essência da tsedacá, porém, é muito diferente da ideia de caridade. O termo “caridade” sugere benevolência e generosidade, um ato magnânimo realizado pelo homem rico e poderoso em benefício do pobre e necessitado. A palavra “tsedacá” deriva-se da raiz hebraica “tsadi, dalet, cof”, que significa “retidão”, “justiça” ou “equidade”. Segundo o judaísmo, dar ao pobre não é visto como um ato generoso e magnânimo; trata-se, simplesmente, de um ato de justiça e honradez, o cumprimento de um dever, dando ao pobre o que lhe é devido.”

 

Esmola no contexto judaico bíblico não é isso que conhecemos e que muitos praticam, ou seja, não é pegar algumas míseras moedas, o resto do troco, no fundo do bolso, para dar à alguém assentado no chão segurando uma caneca, sendo que a carteira está recheada de notas!

 

Esmola no contexto bíblico judaico é Tsedacá.


Os judeus não crentes em Jesus (Yeshu’a) acreditam que: a salvação vem por meio das três práticas: teshuvá (arrependimento, voltar aos caminhos da Torá); tefilá (orações) e tsedacá (atos de justiça).

 

Porém, na verdade a prática destas coisas não salvam em si, mas diante de tal ação veja o que Deus fez visando a salvação do mesmo:

 

Atos 10:22,30-44 E eles disseram: Cornélio, o centurião, homem justo e temente a Deus, e que tem bom testemunho de toda a nação dos judeus [TESHUVÁ], foi avisado por um santo anjo para que te chamasse a sua casa, e ouvisse as tuas palavras ... E disse Cornélio: Há quatro dias estava eu em jejum até esta hora, orando em minha casa à hora nona. E eis que diante de mim se apresentou um homem com vestes resplandecentes, e disse: Cornélio, a tua oração [TEFILÁ] foi ouvida, e as tuas esmolas [TSEDACÁ] estão em memória diante de Deus. Envia, pois, a Jope, e manda chamar Simão, o que tem por sobrenome Pedro; este está hospedado em casa de Simão o curtidor, junto do mar, e ele, vindo, te falará. E logo mandei chamar-te, e bem fizeste em vir. Agora, pois, estamos todos presentes diante de Deus, para ouvir tudo quanto por Deus te é mandado. E, abrindo Pedro a boca, disse: Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; Mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo. A palavra que ele enviou aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo (este é o Senhor de todos); Esta palavra, vós bem sabeis, veio por toda a Judéia, começando pela Galiléia, depois do batismo que João pregou; Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com virtude; o qual andou fazendo bem, e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele. E nós somos testemunhas de todas as coisas que fez, tanto na terra da Judéia como em Jerusalém; ao qual mataram, pendurando-o num madeiro. A este ressuscitou Deus ao terceiro dia, e fez que se manifestasse, Não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus antes ordenara; a nós, que comemos e bebemos juntamente com ele, depois que ressuscitou dentre os mortos. E nos mandou pregar ao povo, e testificar que ele é o que por Deus foi constituído juiz dos vivos e dos mortos. A este dão testemunho todos os profetas, de que todos os que nele crêem receberão o perdão dos pecados pelo seu nome. E, dizendo Pedro ainda estas palavras, caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra.”

 

Explica o rabino americano Naftali Silberberg: “O sentido literal de tsedacá é justiça”. É simplesmente a coisa certa e justa a fazer.

 

Tsedacá, porém, deve ser praticado motivado pelo amor e não por uma motivação interna que visa se amostrar, se aparecer, e receber elogios e aplausos da parte dos homens que assistem!

 

1 Coríntios 13:3 E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres [TSEDACÁ], e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.”


Mateus 6:1-4 “Guardai-vos de fazer a vossa esmola [TSEDACÁ] diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus. Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; Para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente.”


Atos 3:1,2 E Pedro e João subiam juntos ao templo à hora da oração, a nona. E era trazido um homem que desde o ventre de sua mãe era coxo, o qual todos os dias punham à porta do templo, chamada Formosa, para pedir esmola [TSEDACÁ] aos que entravam.”

 

Vale citar um registro histórico contido no Talmud:

 

Turnus Rufus (o governador romano) perguntou a Rabi Akiva: “Por que vocês judeus agem em contrário de Deus? Se Deus criou ricos e pobres, qual o sentido de dar dinheiro aos pobres? Se Deus quisesse que aquele pobre tivesse dinheiro, Ele o daria diretamente!” E assim respondeu-lhe Rabi Akiva: “É justamente para cumprir com o plano Divino, para que haja bondade no mundo. Se todos tivessem tudo aquilo que necessitam, e não precisassem nada de ninguém, como seria possível gerar-se bondade e generosidade?  Um dos principais motivos pelo qual Deus criou o mundo é justamente para que haja bondade. E é por meio da tsedacá que se consegue que este objetivo se cumpra!

 

A riqueza e a pobreza são dois testes. No primeiro, serão testados nossa fidelidade, desprendimento, generosidade e bondade. É considerado o mais difícil. Já no segundo, serão provadas nossa humildade e nossa confiança N’Ele; DAÍ entendemos o porque do pedido registrado em provérbios 30:7-9. 

 

Provérbios 30:7-9 Duas coisas te pedi; não mas negues, antes que morra: Afasta de mim a vaidade e a palavra mentirosa; não me dês nem a pobreza nem a riqueza; mantém-me do pão da minha porção de costume; Para que, porventura, estando farto não te negue, e venha a dizer: Quem é o Senhor? ou que, empobrecendo, não venha a furtar, e tome o nome de Deus em vão.”


O apóstolo Paulo, por sua vez, foi submetido a essas provas e aprendeu a contentar-se tanto na abundância quanto na escassez e ensina que isso foi possível porque mantinha a confiança no Criador, por meio de seu Filho em Filipenses 4:11-13.

 

Filipenses 4:11-13 Não estou dizendo isso porque esteja necessitado, pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece.”

 

Hashem [O NOME, YHWH] testa a pessoa de duas maneiras: com a riqueza ou com a pobreza (vide Shemot Raba 31). E por isso, os pobres acham que seria preferível serem testados com riqueza ao invés de pobreza. Eles não percebem que o teste da riqueza é mais difícil do que o da pobreza. “Remova a falsidade e as mentiras para longe de mim; não me dê pobreza nem riqueza, alimente-me com o pão a mim designado. Pois talvez eu fique saciado e renegue, dizendo: ‘Quem é Hashem?’. Ou talvez eu seja pobre, e roube, e profane o Nome de meu Deus.” (Mishle 30:8-10) Porque o pobre pode pecar ao jurar em vão e ao roubar, enquanto o rico pode pecar ao negar Hashem, um pecado cardeal que equivale a transgredir toda a Torá. [Baseado em Rabi Moshe Alshich sobre a Torá, Parashat Behar.]


Os judeus praticam Tsedacá por obrigação, “por ser a coisa certa e justa a fazer”, nós, discípulos de Jesus (Yeshu’a), devemos fazer por entender que trata-se do exercício prático do amor ao próximo que é obrigação, dever, de todo aquele que foi alvo do amor divino!

 

Com relação a reciprocidade do Céu diante dos atos de Tsedacá praticados na terra, não se deve ficar escolhendo de forma seletiva a quem ajudar:

 

Rabi Zusha respondeu: ‘Veja você, meu filho, o Todo-Poderoso conduz-se conosco conforme nós nos conduzimos com os outros. Enquanto você esteve disposto a ajudar na manutenção de alguém tão indigno quanto Zusha, Hashem também se comportou generosamente contigo, fosse você merecedor, ou não, de tais bênçãos. Mas uma vez que você se tornou seletivo e exigente, passando a ajudar somente o maior dos tsadikim, o Todo-Poderoso reagiu à altura, tornando-se mais seletivo, escolhendo apenas os recipientes mais dignos de sua generosidade.’ (…) No céu, o comportamento com as pessoas é “medida por medida”. Se alguém for escrupuloso e exigente, somente dando tsedacá a indivíduos que mereçam, o Céu apenas lhe concederá Suas bênçãos caso ele as mereça. (…) 

 

Rabino Chaim Tsanzer expressa esse princípio:

 

Rabi Chaim Tsanzer vivia para a tsedacá, e a distribuía fartamente. Uma vez ele deu uma quantia considerável a alguém que se mostrou ser um impostor. Isso magoou muito os seus chassidim, e eles perguntaram ao rebe o porquê de ele ter dado tsedacá a essa pessoa indigna. (…) Rabi Chaim Tsanzer concluiu: “Enquanto eu não for excessivamente seletivo quanto aos receptores da minha tsedacá, eu poderei esperar que Hashem seja misericordioso e generoso para com alguém tão indigno quanto eu

 

Não foi por menos que o profeta Obadias afirmou: Como fizeste ao teu próximo, assim se fará contigo; o teu feito retornará sobre a tua própria cabeça!” (Obadias 1:15).

 

Jesus alertou: Pois com o critério com que julgardes, sereis julgados, e com a medida que usardes para medir a outros, igualmente medirão a vós.” (Mateus 7:2). É nítida a correlação. Se recusarmos ajuda a um necessitado por acharmos que ele não é digno, Deus simplesmente usará o mesmo critério conosco!

 

MUITO CUIDADO...

 

Provérbios 14:31, o Rei Salomão afirma: (…) quem ao necessitado trata com bondade, honra a Deus.


Maimônides enumerou 8 níveis de Tsedacá, cada qual mais elevado que o seguinte:

 

O nível mais alto [mais elevado], acima do qual não existe outro, é apoiar com um presente ou empréstimo, ou fazer uma sociedade com ele, encontrar emprego para ele, a fim de fortalecer sua mão até que não precise mais ser dependente de outros…

 

Um nível abaixo em caridade é dar aos pobres sem saber para quem está doando, e sem que o receptor saiba de quem recebeu. Isso é cumprir uma mitsvá [mandamento = conexão] apenas em prol do céu. É como o “fundo anônimo” que havia no Templo Sagrado [em Jerusalém]. Ali os justos doavam em segredo, e os pobres bons lucravam em segredo. Doar a um fundo de caridade é semelhante a este modo, embora não se deva contribuir para um fundo de caridade a menos que se saiba que a pessoa designada para cuidar do fundo é confiável e sábia, além de bom administrador, como Rabi Chananyah ben Teradyon.

 

Um nível abaixo desse é quando alguém sabe para quem está doando, mas o receptor não conhece seu benfeitor. Os Sábios mais notáveis costumavam caminhar em segredo e colocar moedas nas portas dos pobres. É realmente valioso e bom fazer isto, se aqueles que deveriam ser os responsáveis por distribuir caridade não são merecedores de confiança.

 

Um nível abaixo que esse é quando a pessoa não sabe para quem está doando, mas o pobre conhece seu benfeitor. Os Sábios costumavam atar moedas em suas túnicas e atirá-las por trás das costas, e os pobres iam apanhá-las nas costas das túnicas, para que não ficassem envergonhados.

 

Um nível abaixo é quando alguém dá diretamente ao pobre, na sua mão, mas dá antes que lhe seja pedido.

 

Um nível abaixo é quando alguém dá ao pobre após ter sido pedido.

 

Um nível abaixo é quando alguém dá de maneira inadequada, mas alegre e com um sorriso.

 

Um nível abaixo é quando alguém dá de má vontade.

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